A Rússia abandonou seu projeto de mobilizar mísseis do tipo Iskander em Kaliningrado como resposta amigável è decisão dos Estados Unidos de revisar o plano de defesa antimísseis e cancelar o escudo no leste europeu, informou o enviado russo na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Dmitry Rogozin.
“Eu espero que você possa entender lógica [...] se nós não temos radares ou mísseis na República Tcheca e Polônia, nós não precisamos encontrar resposta”, disse Rogozin.
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O presidente russo, Dimitri Medvedev, havia afirmado no início de julho que a Rússia instalaria os mísseis Iskander em Kaliningrado, um encrave russo situado entre a Polônia e a Lituânia, se os EUA instalassem um escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca.
Os sistemas móveis Iskander (SS-26 Stone, segundo a classificação da Otan) estão dotados de foguetes táticos com um alcance de entre 50 e 300 quilômetros e podem levar cargas de até 480 kg.
O chefe do Kremlin e seu ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, tinham declarado em numerosas ocasiões que as ações de resposta russas seriam empreendidas unicamente no caso que Washington seguisse adiante com seus planos de montar seu escudo antimísseis na Europa.
Segundo o acordo fechado em 2008 entre Varsóvia e Washington, dez interceptores de mísseis balísticos de longo alcance seriam instalados até 2013 na Polônia e um potente radar seria instalado na República Tcheca. O projeto é duramente criticado pela Rússia, que vê um escudo na vizinha Europa como uma ameaça a sua própria segurança.
Recentemente, Medvedev, recebeu Obama no Kremlin para uma retomada das relações, mas deixou claro que Moscou continua rejeitando a proposta do escudo.
“Valorizamos o enfoque responsável do presidente dos Estados Unidos para realizar nosso acordo. Estou disposto a seguir o diálogo”, declarou o presidente russo, em anúncio à TV nacional, após saber do cancelamento do escudo.
Medvedev recordou o encontro com Obama no Kremlin em julho passado e afirmou que os dois chegaram a um acordo para trabalhar em conjunto sobre a avaliação dos riscos balísticos. “A declaração de Washington hoje mostra que, para um trabalho assim, estão apresentadas boas condições”, concluiu.
A ideia da administração Obama é investir em tecnologia mais moderna, bases marítimas em vez de apenas terrestres e interceptores móveis –capazes de se adaptar às ameaças quando e onde estiverem. Assim, as instalações previstas para Polônia e República Tcheca não seriam mais necessárias.
Medvedev disse ainda que discutirá o tema com Obama no encontro bilateral marcado para o próximo dia 23, Em Nova York, paralelamente à Assembleia da ONU (Organização das Nações Unidas).
“Nós teremos uma boa oportunidade de trocar visões sobre todos os aspectos da estabilidade estratégica, incluindo defesa antimísseis”, disse o presidente russo.
No anúncio que fez na Casa Branca, Obama aproveitou para ressaltar que a preocupação de Moscou com o plano anterior eram infundadas e que, mesmo sob a nova configuração, “o nosso foco continua sendo apenas a ameaça iraniana”.
O presidente pediu ainda a cooperação dos russos para ampliar a proteção da região contra os mísseis.
Com Efe, France Presse e Reuters
Setores da Polônia e República Tcheca criticam
abandono de escudo antimísseis
A decisão do presidente americano, Barack Obama, de abandonar um escudo de defesa antimísseis na República Tcheca e na Polônia ajuda a suavizar as relações com a Rússia, mas líderes proeminentes nos dois países expressaram consternação com que veem como um desprestígio depois de décadas de apoio aos Estados Unidos.
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Entre os que manifestaram desagrado estão nomes famosos, como Lech Walesa, o ex-líder do sindicato Solidariedade e ex-presidente polonês.
“Eu posso ver que tipo de política o governo Obama busca para essa parte da Europa”, disse ele tristemente, acrescentando: “A forma como estamos sendo tratados precisa mudar.”
Durante a maior parte da última década, as relações do Leste Europeu com Washington foram de grande proximidade. George W. Bush (2001-2009) cortejou a região após os ataques de 11 de setembro de 2001 e conseguiu que países da região enviassem tropas para lutar ao lado no Iraque e no Afeganistão.
Mas Obama tomou posse com uma posição incerta sobre o plano de Bush de instalar até 2013 dez interceptores de mísseis na Polônia e um radar sofisticado na República Tcheca –um sistema projetado para abater mísseis de longo alcance que fossem disparados do Irã ou de outras partes do Oriente Médio. A construção não havia começado em nenhum dos países.
A instalação Tcheca foi projetada para a instalação militar Brdy, 90 km a sudoeste de Praga. Na Polônia, os mísseis ficariam em uma antiga base aérea militar perto da cidade de Redzikowo, a cerca de 185 km da fronteira com a Rússia.
Mas o projeto acabou envolvido em questionamentos táticos, financeiros e na estratégia de Obama de aproximar-se da Rússia, país que manifestou indignação com a instalação de mísseis apontada em sua direção em uma região que fazia parte da órbita soviética há apenas 20 anos.
Nesta quinta-feira, o presidente americano anunciou que estava mudando a localização dos interceptores de mísseis para outros locais. Ele e outras autoridades do governo disseram que concluíram que os mísseis de médio e curto alcance do Irã representam uma ameaça maior e exigem tecnologia mais flexível.
A decisão de Obama teve uma recepção positiva na Rússia, e foi saudado pelo presidente Dmitri Medvedev.
A chanceler alemã Angela Merkel disse que vê a mudança como “um sinal de esperança para superar as dificuldades com a Rússia quando se trata de uma estratégia uniforme para combater juntos a ameaça do Irã.”
Oficialmente, líderes tchecos disseram que entendem a razão para o abandono do escudo, e expressaram confiança de que o país continuaria a ser seguro.
O ministro tcheco das Relações Exteriores, Jan Kohout, disse que sugeriu “duas iniciativas concretas” à delegação americana em Praga para que se “preencha o espaço vazio” com a ausência do escudo.
“Propus a criação de uma filial centro-europeia da academia militar de West Point, destinada aos países membros da Otan na Europa Central e nos Balcãs, e o envio de um cientista tcheco à Estação Espacial Internacional (EEI).
Kohout também comentou a intenção de Washington de instalar até 2015, na Polônia e na República Tcheca, mísseis SM-3, desenhados para destruir mísseis de curto e médio alcance, dentro do novo projeto de sistema antimísseis.
Mas alguns expressaram desânimo.
O ex-primeiro-ministro Mirek Topolanek, cujo governo assinou tratados com a administração Bush de construir o sistema de radar –e causou reação de tchecos, que temiam que isso faria do país um alvo terrorista– foi à rádio tcheca para desabafar suas frustrações.
“Os americanos não estão interessados neste território como eram antes “, disse ele. “É uma má notícia para a República Tcheca.
A decisão de Obama chamou também despertou reações em Washington.
O líder republicano no Senado, Mitch McConnell chamou-a de “míope e nociva aos nossos interesses de segurança de longo prazo”.
“Não podemos virar as costas a dois fiéis aliados na guerra contra o terror”, disse ele.
Embora Obama tenha dito que os Estados Unidos continuarão a trabalhar cooperativamente com “os nossos amigos e aliados”, as implicações futuras da decisão parecem mistas.
O primeiro-ministro da Polonia disse que mantém a esperança de que seu país possa desempenhar um papel na estratégia renovada de defesa dos EUA.
“Há uma oportunidade para reforçar a segurança da Europa, com especial atenção para a Polônia”, disse Donald Tusk a repórteres. “Eu não descreveria o que está acontecendo hoje como uma derrota para a Polônia.”
Mas um proeminente legislador tcheca sugeriu que a decisão teria consequências quando Washington pedir tropas –ou qualquer outra coisa– ao país.
“Se o governo [americano] se aproximar de nós no futuro, com um pedido, eu estaria fortemente contra ele”, disse Jan Vidim, um parlamentar do conservador Partido Democrático Cívico, que tinha apoiado o plano de defesa antimísseis.
Os opositores do escudo, como Jan Tamas –um ativista que tinha organizado numerosos protestos– elogiou a decisão de Obama.
“É uma grande vitória para a República Tcheca. Estamos felizes de que seremos capazes de continuar a viver no nosso belo país, sem a presença de soldados estrangeiros”, disse ele.
E Mariusz Chmiel, uma autoridade na região norte da Polônia, onde os mísseis seriam instalados, proclamou-se “o homem mais feliz na Polônia”, agora que o plano foi arquivado.
Mesmo assim, o abandono da defesa antimísseis surge como um enorme revés para muitos líderes poloneses e tchecos, que o viam como uma forma de fortalecer os laços militares com os americanos e uma forma de defesa contra uma Rússia ressurgente.
Receios em relação a Moscou são especialmente profundos na Polônia, com destaque para um aniversário nesta quinta-feira. Exatamente 70 anos atrás –em 17 de setembro de 1939– a Polônia foi invadida pela União Soviética no início da Segunda Guerra (1939-1945).
Com Associated Press e France Presse
Afirmação desafiadora de Obama para o Direito Internacional.
Lembrando a notícia publicada no dia 23 de maio de 2008 sobre o comunicado emitido em conjunto pelos Presidentes da China e da Rússia, no qual expressaram total desaprovação à instalação dos escudos antimísseis pelos EUA:
“As duas partes afirmam que o estabelecimento de um sistema defensivo global de mísseis, com seu desdobramento em certas partes do mundo e planos para esta cooperação, não ajudará a apoiar o equilíbrio e a estabilidade estratégias. Além disso, prejudica os esforços internacionais de controle de armas e não-proliferação nuclear”.
A partir desta alegação final, podemos entender, numa relação de condição e efeito, a atitude do governo Obama no que tange à “desistência” dos escudos antimísseis. No dia 24 de setembro de 2009, o símbolo de uma “nova era” americana conseguiu aprovar por unanimidade uma resolução no Conselho de Segurança da ONU sobre o fortalecimento do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e a convocação de uma nova conferência sobre o tema para 2010, segundo noticiado pelo jornal O Globo.
China e Rússia pediram modificação do texto a fim de retirar as menções expressas à Coréia do Norte e ao Irã. O pedido foi atendido e Obama, em seu discurso exigiu compromisso com as resoluções aprovadas contra estes dois países, que continuam sem resultados. A pergunta que se põe é: Será que estes países intimidar-se-ão com estas resoluções assim como os EUA não se intimidaram com resoluções anteriores referente a temas igualmente relevantes?
Como não devemos ser de todo pessimistas, extrai-se uma esperança do discurso de Obama na ONU: “Não se trata de cobrar de nações individualmente, mas sim de trabalhar para uma união mundial de modo a provar que o direito internacional não é apenas uma promessa vazia”. Esperamos que, desta vez, os representantes dos países-chave nesta questão consigam realizar mais do que uma simples promessa, de forma que a credibilidade do Direito internacional não seja afetada mais uma vez por suas atitudes egoístas.
Carolina Koschdoski – Pesquisadora do GEDIRJ – 5o. período Direito na UFRJ.